A frente do tempo – Entrevista com Siegbert Zanettini

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Aos 82 anos de vida, 60 dedicados à carreira, o arquiteto e urbanista é uma referência muito além do uso do aço em seus projetos, mas com diversas obras premiadas também por outra forte marca em seus trabalhos, a de construções sustentáveis 

 

Por Marco Berringer

 

Siegbert Zanettini

 

Diplomado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 1957, onde passaria a dar aula a partir de 1960, Siegbert Zanettini se transformou em referência no uso do aço em projetos de Arquitetura e Urbanismo, com obras icônicas como a Escola Panamericana de Arte, na capital paulista. Mas, com mais de 1.200 projetos em seu currículo, o reconhecimento por seu trabalho e contribuição à Arquitetura vai além, e seu escritório é considerado um dos mais especializados em sustentabilidade, ecoeficiência e green buildings. Defensor do uso racional do espaço atrelado à sensibilidade, Zanettini continua na ativa e, atualmente, se dedica a algumas dezenas de projetos de hospitais e escolas, entre outros.

 

 

Pioneiro, o senhor começou a trabalhar com estruturas metálicas ainda na década de 1970, época em que países como Estados Unidos, Japão e Inglaterra já utilizavam o aço em boa parte de suas construções. Como foi a evolução do uso desse material na Arquitetura brasileira

Sou muito conhecido pelo aço porque fiz obras fantásticas, mesmo não tendo para isso indústria, professor, ciência, escola, não tendo ninguém. Fiz sozinho uma série de coisas durante 40 anos. Demorou aproximadamente uns 40 anos no Brasil para essa área (arquitetura do aço) se despertar. Muito por influência das condições que o BNH (Banco Nacional de Habitação) colocou em 1964, em que a construção teria que usar mão de obra desqualificada. Isso levou a fazer uma construção de baixa qualidade e isso reproduziu uma construção de baixa qualidade em todos os níveis. Baixa qualidade, não tanto no sentido de se deteriorar, mas na maneira evolutiva de se pensar a construção. Ainda se faz construção de maneira artesanal, completamente artesanal, mesmo sendo moderna. Eu não faço Arquitetura moderna, eu faço Arquitetura contemporânea, como alguns arquitetos e engenheiros de todo o mundo.

 

Na opinião do senhor, o que diferencia a Arquitetura moderna da Arquitetura contemporânea?

Há uma diferença muito grande entre a Arquitetura moderna e a Arquitetura contemporânea. A Arquitetura moderna teve como base principal a estética da forma. Era a referência principal dela. Teve uma certa produção profissionalizada, sem dúvida alguma, da década de 1920 a década de 1950, mas na década de 1960 ela começou a perder essa visão de causa para transformar em efeito. Aí se transformou num estilo. Principalmente a Arquitetura paulista, que era dita como brutalista, com concreto aparente, formas cúbicas, presente até hoje na maioria dos arquitetos. Outra coisa que também me incomodava demais é que essa Arquitetura era extremamente fechada para si. Todas as obras dessa época eram fotografadas como uma obra, como se não existisse mais nada em volta. Era uma obra em si. E eu comecei a ver que não. Que num contexto brasileiro, em um país de melhor clima do mundo, de mais água do mundo, de melhor solo do mundo, não tinha sentido eu ficar importando modelos de fora. Eu tinha que começar a pensa em alguma coisa que fosse muito ligada à nossa realidade, à nossa condição. Fiz, então, a primeira casa sustentável.

 

O senhor, inclusive, já ganhou diversos prêmios por conta de seus projetos que prezam por esse aspecto da sustentabilidade.

Não tem nenhuma obra minha que não está aberta para o exterior. Tem uma coisa que é fundamental: a Arquitetura não termina na obra, ela se completa com o ambiente. Se ela não tiver essa relação dentro e fora, muito lógica num pais tropical como o nosso, com as condições climáticas excelentes que temos, nós estamos fazendo a coisa errada. Fecha-se os edifícios em vidro, coloca-se ar-condicionado, se faz tudo errado. É um processo todo ignorante, no sentido científico. Isso me incomodou muito, a vida toda. Comecei, então, a fazer uma série de casas em madeira, madeira composta de pinho reciclado. Fiz uma bateria de obras na década de 1970 usando madeira, com materiais que eu pudesse reaproveitar com a condição que eles tinham, usando a inteligência.

 

O senhor é também um grande defensor e adepto do uso da tecnologia na Arquitetura. Qual sua Importância?

A tecnologia é fundamental. Não faço Arquitetura sem tecnologia há 60 anos. Aí vem o aço, a madeira, tudo aquilo que inventei. Acho que não era um problema de inventar, mas de ver o que realmente os limites que eram colocados tanto pelo modernismo internacional, que rebatia no Brasil de uma certa forma equivocada. Precisava de uma evolução. E fiquei uns 40 anos sozinho isso. Dei o primeiro curso sobre aço em 1994. Depois de quase 30 anos trabalhando com aço que as pessoas começaram a dizer que precisavam ver o que era esse material. Hoje, todo mundo está louco para trabalhar com aço, mas estão todos atrasados. O aço, quando produzido corretamente, tem uma qualidade de leveza, de pouco material, muito menos material que o concreto. Acabei de fazer dois ou três hospitais que foram montados inteiramente em 18 meses. Não teve nada feito na obra, veio tudo montado, tudo preparado com a qualidade industrial. Sem precisar de canteiro.

 

Voltando à questão da Arquitetura contemporânea, a partir de quando e como ela passou a ser desenvolvida no Brasil?

Para mim, a Arquitetura contemporânea nascei aqui no Brasil comigo. Fora do Brasil, com alguns arquitetos que eram contemporâneos também, mas para mim ficou muito claro na proposta de 1970, quando o Richard Rogers (arquiteto britânico) e o Renzo Piano (arquiteto italiano) fizeram o Centro Pompidou (Paris, França). Ali começou, para mim, a Arquitetura Contemporânea. O Centro Georges Pompidou é uma mudança conceitual da Arquitetura toda. Quando fui à inauguração, em 1977, fiquei admirado. Falei: “realmente não estou fazendo as coisas sozinho”. Tem arquitetos que estão entendendo que a Arquitetura precisa da engenharia, da cultura, da ciência e da sensibilidade também.

 

Dez anos atrás, o senhor fez uma declaração de que naquela época, de maneira geral, se “vendiam cenários, e não Arquitetura, que conferem um ilusório status”. Ainda pensa assim?

Para mim existe um outro mundo da Arquitetura. É um mundo onde a visão não é basicamente estética. Para mim, a obra não pode se apartar do mundo científico. A Arquitetura ela surge do encontro, equilibrado e harmônico, entre o mundo científico e o mundo racional. Não há construção que não tenha isso, se ela é evolutiva. E não há construção sem sustentabilidade. Mas a construção brasileira ainda está nessa clave de construir como um mercado, como material de consumo. Vale mais a condição urbana de consumismo, portanto está muito ligado a essa questão de Arquitetura de mercado. Muita obra é feita para você, que não serve para você, que não está nas suas dimensões, na sua capacidade de pagamento, e é repetida à exaustão. O espaço é para o homem, mas quase sempre se esquece do homem. É feito para as necessidades do mercado. É o mercado que determina o que deve ser feito e não há preocupação em mudar isso. É uma reprodução burra, de um mesmo modelo. Não estou dizendo que a Arquitetura deve ser feia. Ela deve continuar bela. Mas, só bela, não resolve.

 

O senhor tem também uma longa carreira como professor. O que acha dos cursos de graduação de Arquitetura e Urbanismo, atualmente

A maioria das escolas que foram criadas dentro desse contexto, que tem que ter lucro com o ensino (a grande maioria são particulares; as escolas públicas estão numa situação muito difícil), está muito preocupada mesmo com a visão de mercado. Aí tem aquele professor meia boca que vai lá, fala um pouquinho do que ele sabe, do que aprendeu, e transmite. Não se vê nenhum estudioso profundo, um sujeito que se dedicou à vida toda estudando, se transformando num cientista, num pesquisador.

 

Na sua avaliação, qual a sua grande contribuição para a Arquitetura brasileira?

O que eu fiz de muito importante é colocar a posição do arquiteto não como a do homem que resolve tudo, mas do homem que precisa ter uma equipe multidisciplinar de todas as áreas. E, dependendo do caso que você estuda, precisa de áreas bem distantes da nossa, que a gente não alcança, para juntos definirmos os conceitos. Acho que falta uma visão holística da vida. Na vida não existe mais nada separado. Tudo é holístico e sistêmico. Tudo tem relações com tudo, e se você não entende o mundo como ele é…Ele representa pedaços sempre de coisas superadas. Ou de coisas que são avançadas, mas estão presas a coisas superadas. Não existe mais começo e fim, mas um conjunto de coisas que precisa ser resolvido no seu todo.

 

 

Fonte: Revista Móbile

 

Entrevista com Siegbert Zanettini, Proprietário da Zanettini Arquitetura Planejamento e Consult, empresa Membro do GBC Brasil

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