O passo a passo do edifício sustentável – David Douek

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David Douek conta sobre suas reflexões e estratégias para aplicar a sustentabilidade na construção civil.

 

Sem receitas prévias ou fórmulas infalíveis, a construção sustentável exige a soma de conhecimentos das várias equipes que participam do projeto, incluindo aí o proprietário do empreendimento. São muitas as sutilezas e as reflexões para se chegar a um edifício de baixo impacto ambiental, com custo viável. Essa é a mensagem do consultor David Douek, diretor da OTEC – Otimização Energética para a Construção, nesta entrevista ao AECweb – um verdadeiro passo a passo da sustentabilidade na construção civil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AECweb – Independente de certificação, é possível tornar um edifício mais sustentável com baixo investimento?
Douek – Durante o desenvolvimento do projeto arquitetônico, poderão ser incorporadas inúmeras estratégias de sustentabilidade, desde a mudança de orientação do edifício até a instalação de um complexo sistema de automação predial. Mas, a concepção inicial do projeto será um fator determinante no impacto dos custos relativos às questões de sustentabilidade. Na prática, isto significa que, se o projeto for concebido já com os conceitos de sustentabilidade pelas equipes envolvidas, a tendência é de solucionar as questões a um custo mais baixo do que, eventualmente, incorporar uma solução numa fase já avançada de trabalho.

 

AECweb – Essa premissa vale para tudo num projeto sustentável?
Douek – Essa matemática funciona particularmente bem quando as equipes de trabalho buscam soluções passivas para o conforto térmico e lumínico. Já no caso da implantação de estratégias, como a instalação de estações de tratamento de efluentes, recomenda-se analisar, não somente o investimento inicial, mas também o retorno do investimento referente à redução de consumo de água potável, para se ter uma correta avaliação do real custo da instalação no médio e longo prazo.

 

AECweb – A localização da obra é importante?
Douek –
Precisamos considerar de forma diferenciada um edifício corporativo a ser instalado em São Paulo de uma residência unifamiliar no interior do estado. Itens como a qualidade do ar externo e o ruído, muitas vezes inviabilizam a inserção de critérios de projeto no edifício a ser construído na capital que poderiam ser perfeitamente bem utilizados em outra cidade. Assim, o projeto sustentável deve ser elaborado estudando-se as diversas alternativas possíveis, de forma a estabelecer a melhor relação custo x benefício.

 

AECweb – Quais são os principais cuidados com o projeto arquitetônico, já que a sustentabilidade começa nessa fase?
Douek – É possível pensar em sustentabilidade até mesmo numa fase anterior ao início do projeto. Se considerarmos a obra como um elemento integrante da malha urbana, identificaremos um grande potencial de redução do impacto do novo edifício através da seleção de um terreno que permita o deslocamento de seus ocupantes de forma a reduzir ou, até mesmo, eliminar a necessidade de utilização de veículos movidos a combustíveis fósseis. A seguir, a equipe de projeto poderá iniciar um trabalho de intensa colaboração entre as partes envolvidas – proprietário, arquitetos e projetistas técnicos.

 

AECweb – Qual a estratégia recomendada?
Douek –
Uma das estratégias para a obtenção de excelentes resultados são as chamadas ‘Design charretes’ que, ao envolverem as equipes com um objetivo comum, garantem excelentes resultados em sustentabilidade. É fundamental para o sucesso da empreitada deixar claro os objetivos de sustentabilidade a serem alcançados por todos os envolvidos com o projeto e a obra.

 

AECweb – Quais as boas práticas e tecnologias que o construtor pode adotar no canteiro de obra?
Douek –
Cada caso deve ser avaliado em separado. A proximidade de rios ou um aclive acentuado pode definir a especificação de diferentes técnicas. De modo geral, um canteiro de obra organizado e ambientalmente responsável deve considerar, ao menos:

– A implantação de normas e procedimentos de segurança como a utilização dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs);
– A correta armazenagem de materiais, de forma a evitar desperdícios;
– O gerenciamento adequado das instalações provisórias. A utilização de instalações que possam ser realocadas após o final da obra é um bom exemplo de procedimento adequado;
– O manejo adequado de resíduos de obra para fins de reciclagem ou reaproveitamento dos resíduos em outras obras;
– O controle da poluição gerada pela obra, feito através da implementação de diversas estratégias como: plantio de forração temporária ou permanente, proteção com manta geotêxtil para evitar que as águas pluviais lavem a terra do sítio para fora do terreno;
– A redução do impacto da obra em seu entorno que pode ser feita através do escalonamento da intervenção no terreno.

 

AECweb – Quais os recursos que podem assegurar a eficiência energética do edifício?
Douek –
A eficiência energética do edifício está diretamente relacionada à concepção do projeto de arquitetura e à especificação de equipamentos mais eficientes. Seu desempenho será essencialmente definido pelas características de sua envoltória; pela proporção entre vidro e fechamentos que apresenta (WWR); pelas condições de aproveitamento passivo de energia solar, ventilação e iluminação natural; pelas propriedades físicas dos materiais especificados; pela volumetria e orientação dos blocos componentes da edificação; e pela eficiência dos sistemas quando estes se fizerem necessários. A especificação adequada vai depender essencialmente do clima local, do micro-clima e do uso do edifício. A simulação energética pode ser utilizada como uma ferramenta de comparação de desempenho entre os elementos componentes.

 

AECweb – Sem grandes sofisticações, o que seria um bom sistema de condicionamento de ar de baixo consumo?
Douek –
A resposta mais adequada para esta pergunta é: “depende”. Isto porque, entre os possíveis sistemas a serem especificados, a adequação varia em função de diversos critérios como altura do edifício e tamanho do espaço a ser condicionado. Ainda assim, quando necessário o condicionamento artificial, a busca por um sistema com um COP mais elevado é uma das estratégias a ser perseguida.

 

AECweb – Energia solar para aquecimento de água é fundamental?
Douek – No Brasil, aproximadamente 90% das residências possuem chuveiro elétrico, item que contribui com 23% do consumo de energia elétrica doméstica. Nas casas de baixa renda este índice pode chegar a 35%. Os SAS – sistemas de aquecimento solar – favorecem uma considerável redução no valor da conta de energia, e ainda possibilitam a recuperação do investimento inicial em até 18 meses. Soma-se a redução do impacto sobre a matriz energética brasileira, na qual a demanda dos chuveiros elétricos no horário de pico corresponde a 8,5% da demanda total neste horário. Em várias cidades brasileiras, inclusive na capital paulista, leis municipais tornaram obrigatória a instalação de SAS para as novas construções.

 

AECweb – Telhado verde pode colaborar com a redução no consumo energético?
Douek –
O telhado verde contribui muito com algumas questões de sustentabilidade, como a redução do efeito ‘ilha de calor’. No entanto, o indiscutível impacto da cobertura sobre o consumo de energia de um edifício varia em função de itens como o pé-direito da edificação, quantidade de pavimentos e das propriedades térmicas dos materiais utilizados na cobertura. O impacto do telhado verde deverá ser equacionado junto a todos os outros. No caso de um edifício de 30 pavimentos, o impacto da cobertura será necessariamente menor do que em uma edificação térrea. Em cidades como Maceió, por exemplo, a utilização de ventilação natural tem impacto muito maior para edificações com pé-direito alto do que a espessura da cobertura utilizada. A simulação energética é uma ferramenta útil para a verificação do impacto destes elementos.

 

AECweb – Qual o percentual de economia que é possível obter com essas práticas e soluções?
Douek –
O percentual de economia que as boas práticas podem promover varia muito em função da concepção do projeto arquitetônico. No caso de uma edificação que trate a ventilação natural como uma das estratégias de redução de consumo de energia é possível, em alguns casos, eliminar por completo a necessidade de condicionamento artificial. Se considerarmos que em edifício comercial, o ar condicionado responde, em média, por aproximadamente 50% do consumo de energia, a concepção do projeto pode promover uma redução de até metade do consumo projetado. Uma das formas de se analisar o consumo de energia futuro da edificação é através do desenvolvimento de um modelo de energia, ferramenta que permite a elaboração de comparativos entre as diversas soluções propostas.

 

AECweb – Quais são as soluções sustentáveis quando se deseja o uso racional da água?
Douek –
É importante selecionar as estratégias de uso racional de água em função da edificação proposta. A título de exemplo, a captação de águas pluviais pode tornar-se mais ou menos interessante em função da relação área de cobertura x número de ocupantes x área do terreno. De maneira geral, é importante considerar a utilização de metais economizadores; a medição setorizada do consumo de água; a captação e reuso de águas pluviais; a implantação de sistemas de tratamento de efluentes.

 

AECweb – Em que situação é indicado implantar uma ETE – Estação de Tratamento de Esgoto para o edifício?
Douek –
Os problemas de saneamento básico que se refletem sobre a capacidade limitada de tratamento dos efluentes do sistema público, por si só, é uma boa justificativa para tratar isoladamente os efluentes de cada unidade edificada. Ainda assim, podemos observar vantagens como a possibilidade de reutilização da água tratada para fins não potáveis, como para uso sanitário e irrigação. A consequente redução do nível de consumo de água potável é mais uma das vantagens da adoção dos sistemas. O mercado apresenta diversas soluções, entre elas, algumas modulares que podem ser aplicadas aos diversos tipos de edificação.

 

AECweb – Por que tratamento de água pluvial para uso não deve ser confundido com uso da água de chuva simplesmente?
Douek –
A água pluvial, apesar da impressão visual de limpeza, contém impurezas que, ao serem ingeridas ou ao entrarem em contato com a pele, podem provocar desde simples irritações até mesmo infecções intestinais. A água pluvial para fins de irrigação ou uso sanitário deve ser captada e tratada antes de sua utilização. O nível se tratamento deve ser definido em função da utilização prevista, conforme apontado pela NBR 15527/2007. A cisterna, um dos principais elementos componentes de uma instalação, deve ser dimensionada em função do consumo previsto.

 

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AECweb – Qual a orientação a ser dada quanto aos chamados materiais sustentáveis?
Douek –
A seleção dos materiais a serem especificados para uma obra deve atender a diversos critérios, como a origem dos materiais; a quantidade de compostos orgânicos voláteis (COVs) quando aplicável; e a quantidade de conteúdo reciclado. Para madeiras, é importante considerar se o produto obteve certificação como a da Forest Stewarship Council (FSC), que significa que a madeira foi extraída segundo as boas práticas de manejo florestal. Produtos fabricados com matérias-prima rapidamente renováveis (bambu e eucalipto, por exemplo) também fazem parte de uma especificação ambientalmente responsável. Para uma obra a ser certificada LEED, por exemplo, os critérios são claros e em alguns casos quantitativos. Já para obras que não busquem a certificação, além dos critérios acima apresentados, o projeto deve contemplar as características da arquitetura local, bem como a proximidade de fornecedores e materiais.

 

AECweb – Qual a diferença entre um edifício sustentável e um edifício sustentável certificado?
Douek –
As práticas a serem implantadas para caracterizar o que hoje chamamos de edifício sustentável são as mesmas que viabilizam a obtenção de uma certificação. A diferenciação a ser considerada em função do tipo de certificação almejado (LEED, BREEAM, AQUA, etc) depende muitas vezes de critérios qualitativos e quantitativos. No caso do LEED, é necessário comprovar reduções percentuais em relação a parâmetros pré-estabelecidos no que tange à certificação. A implantação das estratégias deve atender ao mínimo exigido pela certificadora. O BREEAM exige que o edifício seja auditado pela certificadora. O AQUA, que também exige a auditoria da certificadora, demanda a análise do programa de projeto antes de dar sequência aos trabalhos.

 

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Entrevista com David Douek, que é referência na tipologia LEED O+M (Operação e Manutenção de Edifícios Existentes), já tendo certificados dezenas de empreendimentos.

Fonte: AECweb

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