Entrevista com o arquiteto Michele Olivieri – MCA, Itália

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Michele Olivieri, nascido em Fano, Itália, em 1980, formou-se em arquitetura pela Faculdade de Ferrara em 2005. De 2003 a 2004 estudou Urbanismo e Desenho Industrial na cidade de Curitiba, Brasil, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, e trabalhou no prestigiado IPPUC – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, fundada por Jaime Lerner. De 2006 a 2010, enquanto trabalhava como arquiteto, desenvolveu atividade de pesquisa para a Universidade de Ferrara e Veneza (IUAV), obtendo um PhD em Tecnologia da Arquitetura com a tese “Vegetação nas Fachadas dos Edifícios para o Controle do Microclima”. A partir de 2008 colabora com o estúdio MCA – Mario Cucinella Architects em Bolonha, Itália, trabalhando como arquiteto e gerente em mais de 40 projetos e concursos como: sede da 3M, em Milão, os projetos preliminares e definitivos de um novo Campus universitário em Valle D’Aosta, o concurso para a extensão do campus da Universidade Bocconi em Milão, a direção artística da sede da Arpa em Ferrara e o projeto para a torre de Unipol Sai em Milão. Ele também trabalhou em vários projetos de grande escala de regeneração urbana como: a extensão da Fiera di Parma, o masterplan para a área do distrito de Romanina em Roma, o projeto para o desenvolvimento urbano do distrito de San Berillo em Catania e do masterplan para a distrito financeiro de Venetocity entre Pádua e Mestre. Durante os anos como colaborador com a MCA trabalhou como arquiteto e gerente de projeto para uma série de novas estruturas hospitalares na Itália e na África do Norte, entre eles o projeto definitivo de quatro hospitais na Toscana, nas províncias de Lucca, Prato, Pistoia e Massa Carrara , a construção do novo edifício de cirurgias para o hospital San Raffaele, em Milão, o projeto preliminar do novo “Centro hospitalo-Universitaire” (CHU) em Alger, e o projeto preliminar para o concurso da “Città della Salute e della Ricerca” em Milão, trabalhando como coordenador técnico da equipe do projeto.

 

A sustentabilidade nas construções avança em um ritmo acelerado em diversos países. Como você avalia este cenário nos próximos anos? Quais as perspectivas para o setor?

Michele Olivieri: O assunto da sustentabilidade na arquitetura não é uma novidade por si mesmo e nos últimos 10-15 tornou-se um poderoso motor para sustentar o setor das construções. O emprego de materiais e produtos com uma pegada ambiental sustentável é hoje em dia muito comum, assim como a certificação de empreendimentos imobiliários (a partir do padrão LEED). Isso tudo já está alcançando uma quota de mercado das construções muito grande e nesse sentido a arquitetura já conseguiu o resultado de pioneira na busca de soluções técnicas inovadoras. A maior barreira deste mercado hoje é a falta de soluções alcançáveis pelas faixas de baixa renda, que envolvem tanto a construção particular, como o desenvolvimento de novos espaços públicos. Neste setor a arquitetura precisa investir muito trabalho no futuro próximo, desenvolver linguagem, tecnologias e soluções para transformar a sustentabilidade num direito para todos

 

Você participou da abertura da 7° Greenbuilding Conferência Internacional & Expo com uma palestra sobre Empatia Criativa. Fale um pouco sobre o que é Empatia Criativa na construção sustentável?

MO: Empatia criativa significa desenvolver cada projeto a partir dos recursos naturais, materiais e culturais diferentes oferecidos por cada lugar. Significa abandonar a ideia de uma arquitetura global que pode ser repetida (como um carimbo) igual a si mesma em cada canto do mundo, por causa da possibilidade de conseguir performance ambientais aceitáveis a partir do emprego de implantações cada vez mais caras e sofisticadas. Significa projetar, a cada vez, arquiteturas diferentes e novas, feitas para ocupar um determinado lugar no mundo, num tempo certo na história.

 

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Qual a sua análise em relação ao Greenbuilding Brasil Conferência Internacional e Expo? Quais foram os pontos fortes em sua opinião e o que você acredita que ainda tem a evoluir no setor brasileiro de construção sustentável, tanto nas dimensões ambientais, quanto nas sociais e econômicas?

MO: O Greenbuilding Brasil foi sem dúvida uma experiência interessante. A crise do setor da construção dos últimos anos no Brasil fez com que a busca de produtos, soluções arquitetônicas e certificações se tornasse uma opção de grande interesse por empresas e firmas. Isso é bom na medida em que transforma um momento difícil da economia brasileira, numa oportunidade de desenvolvimento, mas principalmente os arquitetos precisam encontrar a força e a coragem para conseguir algo maior do que isso, é preciso voltar a desenvolver nas grandes metrópoles brasileiras projetos de alto impacto arquitetônico e social, capazes de incorporar o que o mercado da tecnologia e das certificações podem oferecer, transformando o que hoje aparece como oportunidade de desenvolvimento econômico numa oportunidade de desenvolvimento social.

 

No âmbito da construção sustentável se aborda muito o termo “integração”. Como você define esta palavra e qual a importância dela para o setor?

MO: A palavra integração sempre teve na historia de nosso escritório e de nossa pesquisa como arquitetos interessados em desenvolver uma linguagem focada na sustentabilidade, um papel muito importante. Tudo o que nós conseguimos experimentar ao longo dos anos nos levou a pretender alcançar em cada projeto a máxima integração entre todos os aspectos, não apenas técnicos das nossas arquiteturas (o que hoje em dia após o desenvolvimento de instrumentos inovadores como todos os softwares que nos permitem trabalhar com modelos virtuais BIM, capazes de simular qualquer problema ou interferências do mundo real), mas também culturais, sociais e históricos de cada nova obra de arquitetura.

 

Em sua opinião, qual a grande importância de um sistema de automação bem planejado na real eficiência das construções verdes?

MO: A automação no mundo da produção industrial para o setor das construções não é uma novidade. Até ao ponto que é possível discutir bastante sobre os resultados que nas últimas décadas do século passado foram conseguidos. O que hoje é mais interessante observar é como o desenvolvimento de instrumentos informatizados cada vez mais sofisticados para controle dos projetos, estão conseguindo implementar e transformar a produção industrial favorecendo a difusão de peças que, apesar de serem produtos industriais, podem se diferenciar conforme a especificação dos Arquitetos para se adaptar às necessidades de cada projeto.

 

Uma das questões mais discutidas no desenvolvimento de um edifício sustentável é a fase de operação, devido a ausência de pessoal qualificado para a operação do edifício. Como você avalia este cenário e quais soluções que devem ser adotadas para que o edifício opere de acordo com o planejado em projeto?

MO: Não existe uma regra para este problema que não seja a formação de profissionais e usuários. Hoje é possível controlar ao longo do projeto a totalidade dos problemas que um prédio poderia gerar ao longo da sua vida, é possível construir modelos virtuais, colocando em cada componente as verdadeiras características em termos de custo, eficiência e duração. Esse tipo de controle que até poucos anos atrás era considerado inovador, está se tornando em muitos países do mundo uma demanda comum para qualquer novo empreendimento. Isso significa que o projeto hoje em dia, além de definir os detalhes da construção, precisa considerar e envolver a modalidade de utilização de um prédio ou de um espaço, no dia-a-dia, como ao longo da sua vida. Por isso é necessário acostumar também os usuários a estudar as características dos edifícios que utilizam como já fazem com qualquer equipamento tecnológico. Para incentivar isso é preciso mostrar de maneira muito clara as vantagens de utilizar no modo certo uma estrutura, desenvolvendo uma comunicação que seja cada vez mais simples e direta dos aspectos técnicos dos projetos.

 

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Outro tema que vem sendo bastante discutido no planejamento das construções é a saúde e bem-estar dos usuários. Quais os principais benefícios que um projeto que prioriza esta questão pode trazer tanto para empresa quando para seus ocupantes?

MO: Um bom projeto de arquitetura deve considerar todos os fatores ambientais ao seu redor. Isso sempre foi uma demanda fundamental na história da arquitetura, que o mercado da especulação imobiliária do século passado resolveu tentar abandonar, gerando cidades e arquitetura monstruosas, muitas vezes escondidas atrás de fachadas modernistas ou neoclássicas. A arquitetura em si foi desenvolvida para servir e melhorar a qualidade de vidas dos homens, do ponto de vista ambiental, assim como social e cultural e é preciso voltar a desenvolver projetos capazes de alcançar esse objetivo. Implementar a qualidade do espaço urbano significa melhorar não apenas a salubridade dos espaços mas também oferecer mais oportunidades aos moradores. Os custos econômicos da qualidade nos projetos (especialmente de grande porte) precisam ser comparados com as vantagens em termos de bem-estar social gerado.

 

Uma questão que também vem sendo muito evidenciada nos projetos de construção sustentável é a geração de energia limpa através de placas fotovoltaicas, sendo a Itália detentora de um alto nível de conhecimento e tecnologias neste tipo de sistema. Como a experiência da Itália pode contribuir para a evolução desta tecnologia no Brasil?

MO: A tecnologia fotovoltaica já alcançou um elevado nível de desenvolvimento e maturidade. Ainda existe margem para desenvolver mais este tipo de produto, mais os níveis de industrialização e a queda dos custos fazem com que sejam bem acessíveis para qualquer mercado. O que seria interessante exportar da nossa experiência Italiana e Europeia, não podem ser apenas produtos ou tecnologias, mas o conjunto de regras, leis e políticas que foram aplicadas ao longo de quase 20 anos para incentivar a difusão de tecnologias sustentáveis. As políticas foram na nossa experiência a componente mais complicada e delicada no desenvolvimento dessas tecnologias e é preciso capitalizar todas as experiências e os muitos erros que já foram feitos na Europa.

 

Em sua opinião, o que é preciso para que os investidores, empresas, fabricantes e sociedade definitivamente se conscientizem da importância na construção e se engajem na busca por um futuro mais sustentável?

MO: Infelizmente, a crise do mercado imobiliário e o custo dos recursos que está se tornando cada vez mais alto, já reapresentam uma forma de incentivo que, além de dolorosa está se demostrando muito eficaz. Mas isso pode não ser suficiente. A arquitetura precisa retomar um pouco das suas responsabilidades sociais e culturais. O Arquiteto no Brasil, como em muitos lugares no mundo, tornou-se a partir das últimas décadas do século passado um profissional incapaz de incentivar ou inspirar, com a qualidade da sua obra, uma transformação nos costumes das pessoas. O Arquiteto num país complicado e difícil como o Brasil, não pode se limitar em projetar lindas moradias para os mais ricos ou botar colunas e capitéis em cima de prédios horrorosos! A difusão de um estilo de vida mais sustentável passa pelo desenvolvimento de modelos arquitetônicos inovadores capazes de incentivar uma verdadeira mudança social e cultural.

 

 

“A arquitetura em si foi desenvolvida para servir e melhorar a qualidade de vidas dos homens, do ponto de vista ambiental, assim como social e cultural e é preciso voltar a desenvolver projetos capazes de alcançar esse objetivo”.

 

 

 

 

Entrevista retirada da 10ª edição da Revista GBC Brasil

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