Você Sabe Quanto Realmente Custa Uma Construção?

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Quando tomamos a decisão de construir, seja uma simples casa ou um grande edifício, é preciso estudar os custos da construção. Todos concordam que a elaboração de um orçamento é uma regra básica.

Existem vários métodos para estimar este custo. O mais simples é utilizando o CUB, indicador do custo básico por metro quadrado calculado pelo SINDUSCON de cada região. Multiplicando-se a área a ser construída pelo CUB encontramos um valor estimado do custo da obra. Caso o empreendedor deseje um orçamento mais preciso e refinado, o melhor caminho é a contratação de um orçamentista profissional.

Independentemente de qual metodologia é usada, se estamos nos referindo a uma construção convencional, o resultado final do orçamento não é real. Os cálculos consideram somente os custos envolvidos dentro dos limites do terreno, ou seja, mão de obra e materiais. O que poucos profissionais enxergam, é que há enormes custos externos que não são levados em consideração e quem paga essa conta extra somos eu, você e o resto da sociedade.

Os custos externos são aqueles referentes aos impactos ambientais e sociais causados por um projeto de edificação convencional, que na maioria dos casos geram uma série de problemas à comunidade, onerando as despesas do município. Para melhor entendimento dos impactos negativos de uma casa ou edifício convencional vamos fazer uma análise por etapa: obra e posteriormente ocupação.

Um dos impactos mais preocupantes de uma obra é a questão do carreamento de sólidos para rede pluvial. Quando as chuvas lavam o solo da obra, sedimentos (partículas de solo) são carreados até os rios. A população de Governador Valadares, por exemplo, conhece bem os efeitos de um rio extremamente assoreado. A concessionária de água eleva os custos de tratamento e obviamente transfere para os consumidores.

 

Exemplo de uma obra que não se preocupa com o carreamento de sólidos.
Exemplo de uma obra com sistema para evitar o carreamento de sólidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro custo que afeta diretamente a nossa sociedade é a disposição dos resíduos sólidos. É muito difícil para qualquer município gerenciar um aterro sanitário. Mesmo que este seja privado, os custos envolvidos para a disposição final são altos, isto porque encontrar uma área e prepará-la para estocar qualquer tipo de resíduo envolve grandes investimentos. Portanto, uma obra que não se preocupa em segregar, reutilizar e reciclar seus resíduos, acaba por enviar um volume excessivo de resíduos para os aterros, reduzindo assim o tempo de vida útil do mesmo. Consequentemente, a sociedade terá um custo extra para conseguir novas áreas de aterro.

Agora, vamos analisar a etapa de ocupação e operação. Uma casa ou edifício convencional sempre terá um consumo de energia e de água além do necessário. O consumo exagerado de energia contribui direta e indiretamente para efeitos de grandes magnitudes, como intensificação do Efeito Estufa e aumento da demanda de maneira a justificar a construção de novos empreendimentos como a hidrelétrica de Belo Monte.

 

Compreenda como funciona as ferramentas de Certificação: LEED, GBC Brasil Casa e GBC Brasil Condomínio.

 

Para demonstrar o quanto estes impactos estão perto de nós, no dia 12/09/2017 a BBC Brasil publicou uma matéria com fatos que relacionam furacões mais devastadores com o efeito do Aquecimento Global. Cientistas dizem que é certo que as águas do Golfo do México hoje são 1,5 graus mais quentes que as temperaturas entre 1980 e 2010. Além disso, afirmam que para cada grau Celsius extra no clima, a atmosfera pode conter 7% mais de água. Isso tende a tornar as chuvas ainda mais fortes, quando ocorrem.

Com relação ao consumo excessivo de água, quase todos nós já enfrentamos situações de crise hídrica e sabemos as consequências: que vão da necessidade de racionamento a rodízios de abastecimento de água que, geralmente, afetam de forma desproporcional a população de baixa renda, que é a mais exposta às doenças ligadas à falta de saneamento.

Não podemos ainda deixar de citar duas graves consequências de se ocupar toda a área do terreno. Quanto mais áreas impermeáveis maior as chances de ocorrência de enchentes, isto porque ao caírem sobre a propriedade, as águas pluviais escoam rapidamente para as ruas, sobrecarregando os sistemas de drenagem. Com a redução das áreas permeáveis, (jardins e hortas por exemplo) os aquíferos deixam de ser recarregados, afetando a disponibilidade de água nos rios.

Diante dos problemas citados, é possível perceber que no modelo tradicional de construção o valor final do orçamento da obra não é real. Os custos extras gerados pelos impactos negativos são pagos pela sociedade, ou seja, por pessoas que não tem relação com os empreendimentos.

O caminho mais inteligente a ser seguido pelo mercado da construção civil é de adoção de estratégias que evitem, ou pelo menos minimizem, os efeitos destes impactos negativos. Atualmente, já podemos presenciar diversos empreendimentos que foram pensados para internalizarem os custos de se evitar e minimizar os impactos ambientais e sociais. Esta nova forma de se projetar e construir é conhecida como construção sustentável, ou green building.

Pelo que foi exposto até aqui podemos entender porque há uma diferença de preço entre as construções sustentáveis e as construções convencionais, não sendo justo dizer que construir de forma sustentável é mais caro.

No mercado imobiliário brasileiro, a média da diferença de custo entre uma construção convencional e uma sustentável é de apenas 6%. Devido ao menor custo operacional – pela baixa demanda de energia e água – o retorno médio do investimento extra é de até 4 anos. Sendo que na maioria das vezes este tempo é muito menor, se conseguirmos mensurar a valorização de mercado, velocidade nas vendas, aumento de produtividade e da sensação de bem-estar dos ocupantes do edifício construído seguindo os preceitos da sustentabilidade.

 

Dados de pesquisa apresentados pelo relatório World Green Building Trends 2016, elaborado pela agência Dodge Data & Analytics

 

 

Texto escrito por:

Vitor Tosetto, Consultor LEED AP BD+C, Sócio-Diretor da LarVerdeLar, empresa Membro do GBC Brasil.

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