Não há outro caminho para o futuro da construção senão o da inovação

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A indústria da construção civil, inexoravelmente, precisa lidar com um volume gigantesco de dados, e envolve muitas pessoas, organizações e empresas, com motivações diversas, capacitações e limitações diferentes, que realizam inúmeros processos e trocas de informações durante a realização de qualquer empreendimento, mesmo os mais simples.

Sobre os Materiais utilizados

Segundo o pesquisador da USP, Prof. Dr. Ubiraci Espinelli,, se compararmos a indústria da construção civil com a automobilística, quanto às quantidades de materiais utilizados, e usando médias, concluiríamos que, a construção utiliza 100 vezes mais materiais em peso (ou massa) que a indústria automobilística. Significa que se conseguíssemos economizar apenas 1%, em massa, na nossa indústria, equivaleria a todo o consumo anual de materiais da indústria automobilística. E ainda, para obter os agregados utilizados nas nossas construções, acabamos gerando crateras, enquanto os resíduos sólidos produzidos pelas construções geram montanhas, que consomem combustíveis fósseis para serem transportados, poluem nossas vias e nossos rios e entulham e emporcalham o nosso mundo. Alguns já calcularam que a construção civil joga fora 1 a cada 3 prédios construídos. O Prof. Ubiraci conceitua que “perda é toda quantidade de material consumida além da quantidade teoricamente necessária, que é aquela indicada no projeto e seus memoriais, ou demais prescrições do executor, para o produto que está sendo executado”. Sobre a mão-de-obra utilizada e a produtividade média Thomas Bock¹ , líder da área de construções e robótica da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, publicou no ano passado um artigo no qual afirma que os métodos convencionais da construção civil já teriam alcançado seus limites de produtividade e que, portanto, a indústria estaria estagnada já há alguns anos. Como evidência, compara dados de produtividade da mão-de-obra de outras indústrias, com a construção civil. O pesquisador alemão cita também algumas tendências mundiais, como a mudança do perfil demográfico e o envelhecimento da população produtiva, que, combinada com a redução das taxas de natalidade, estariam aumentando ainda mais a pressão sobre as economias da maioria dos países do mundo, que não teriam outra saída senão aumentar sua eficiência e produtividade, para garantir algum crescimento e alcançar um relativo equilíbrio econômico.

Os fatores que induzem (ou exigem?) a inovação

Para aumentar nossos desafios, o mundo tem ficado cada vez mais complexo e exigente. Com o envelhecimento da chamada geração ´baby-boomer´, substituída pelos ´milleniuns´, até os hábitos e exigências dos consumidores também estão mudando. Hoje já temos novas formas de produzir coisas, como a produção aditiva (impressoras 3D) ou subtrativa (fresas controladas por computadores). Os próprios produtos também têm mudado muito, e agora precisam atender a novos requisitos tecnológicos de design e de desempenho. Podemos mencionar ainda que há novas formas de acesso aos capitais, como o ´crowd funding´, novas maneiras de trabalhar colaborativamente, com equipes ´virtuais´ que são capazes de desenvolver projetos e tarefas complexas, mesmo sem nunca ter estado pessoalmente e fisicamente juntas. Agora temo também novas possibilidades de acesso a ilimitada capacidade de processamento, através da ´nuvem´, recursos que antes só eram acessíveis a grandes empresas, capazes de realizar altíssimos investimentos. E no Brasil, ainda vivemos um período de estagnação econômica, que tem afetado especialmente a indústria da construção civil. Há certo consenso entre os principais autores que pesquisam e estudam as causas das inovações nas empresas, de que a maioria dos fatores que são indutores das inovações, estaria relacionada às pressões econômicas, competição no mercado, necessidade de diferenciação e que, em última instância, se resumiria na necessidade da melhoria do desempenho total. Ou seja, as empresas costumam mudar e inovar, muito mais em função da ´dor´ do que por ´amor´. O BIM como alavanca de inovação na indústria da construção civil considere que uma reação bastante oportuna para responder a este momento complexo e doloroso que estamos vivendo na indústria da construção civil no Brasil, seria a migração para o BIM – Building Information Modeling. Adotar BIM significa tomar a decisão de inovar. Por definição, BIM é aplicável a todo o ciclo de vida de um empreendimento, desde as etapas mais iniciais, quando um ´objeto a ser construído´ ainda está sendo criado e conceituado, abrangendo as fases de projeto e especificações, a própria fase de construção até a gestão das edificações ou instalações (ativos) já construídos, ocupados e utilizados. Neste último caso, os usos mais comuns do BIM estão diretamente relacionados à gestão da manutenção e da ocupação dos espaços. Como BIM é abrangente demais, esta é uma das causas que dificultam seu correto entendimento e emperram uma mais ampla adoção. Há também muito ruído e imprecisão nas informações sobre a tecnologia. Muitos pensam que BIM é somente software, usado apenas para o desenvolvimento de projetos e, na verdade, trata-se de um conjunto de processos, políticas e ferramentas, que em conjunto, quando bem planejadas e implementadas, oferecem novos recursos para os diversos profissionais que atuam na indústria da construção. Com o BIM pode-se criar um modelo virtual (e muito preciso) de um edifício, construindo-o digitalmente. Quando completado, este modelo pode conter não apenas as medidas e geometrias, mas também o inter-relacionamento entre seus componentes, seus inúmeros atributos e todos os dados importantes para dar suporte à gestão de todo o ciclo de vida de uma edificação. Outros pensam que um único modelo BIM resolve tudo e, definitivamente, não é assim que funciona. É preciso definir claramente e previamente qual o principal propósito de uso de um modelo BIM, antes de iniciar o seu desenvolvimento. Assim, podemos desenvolver macro-modelos BIM, nas fases mais iniciais do ciclo de vida; ou ´modelos autorais´ (ou ´projetos autorais´; modelos de construção, para estudar e ensaiar o processo de construir uma edificação ou instalação ou ainda, também podem ser desenvolvidos modelos BIM específicos para a gestão da operação e manutenção de uma construção ou instalação já construída, pronta e ocupada (em uso e operação). Mas, se fôssemos reduzir ao máximo, a parte mais importante do BIM é o ´I´ de ´informações´; que devem ser corretamente criadas, integradas num modelo digital, que poderão então ser distribuídas, acessadas e utilizadas em todo o ciclo de vida de uma edificação.

Os principais ganhos e valores do BIM

O benefício mais imediato de migrar para o BIM é a visualização tridimensional, não apenas da edificação completa, mas também de todas suas instalações, subsistemas e componentes. Mas nem tudo o que é 3D é BIM; entretanto, se for BIM, será 3D. Muitas pessoas que participam dos empreendimentos de construção, não são engenheiros e arquitetos e tem dificuldades para entender e realmente ´enxergar´, com precisão, um projeto representado apenas com desenhos técnicos. Algumas dessas pessoas podem ser proprietários e investidores, ou seja, podem ser participantes de fundamental importância no empreendimento. As quantidades de componentes e serviços podem ser extraídas automaticamente dos modelos BIM. Isso significa maior produtividade e confiabilidade no processo de orçamentação e planejamentos. Com BIM pode-se ensaiar a obra virtualmente num computador e, antes de executar qualquer atividade no endereço real da obra, testar soluções não apenas para os subsistemas que serão, de fato, incorporados na edificação, mas também para os recursos necessários para a execução da obra, como os transportes verticais, bandejas de proteção, instalações provisórias. Nas soluções BIM, as interferências entre os diferentes subsistemas (arquitetura, estruturas, instalações, etc.) podem ser detectadas antecipadamente e automaticamente, gerando projetos e edificações mais consistentes e reduzindo significativamente as indefinições deixadas para solução na obra. Inúmeros outros benefícios podem ser listados como a redução dos riscos dos empreendimentos, a preservação da memória das decisões tomadas, maior aderência dos empreendimentos aos projetos, especificações e planejamentos, redução de erros, de retrabalhos, de conflitos e desgastes.

Lembrem-se: BIM não é novo, o que é novo é o acesso da construção civil a ele.

Soluções similares ao BIM já tem sido utilizada em outras indústrias, com outros nomes, por exemplo, na indústria automobilística e aeroespacial, onde a repetição de um mesmo projeto (escala de produção) viabiliza o um investimento maior do desenvolvimento dos projetos; ou nas construções offshore, onde a complexidade logística também justifica maiores investimentos nas fases de concepção e detalhamento. Então o que é novo, na verdade, é o acesso da construção civil a esta tecnologia, viabilizada pelo ´barateamento´ dos softwares e também do hardware, porque hoje, um notebook nem precisa ter uma configuração muito especial para oferecer uma grande capacidade de processamento, que é um dos requisitos necessários para ´rodar´ satisfatoriamente os softwares BIM. Por entender que esta é uma das mais importantes inovações gerenciais dos últimos anos, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em parceria com o Senai Nacional, publicou em julho deste ano, a Coletânea Implementação do BIM para Construtoras e Incorporadoras para tornar a plataforma ainda mais acessível às empresas do setor, a fim de que esse diferencial competitivo seja democratizado. A Coletânea está disponível gratuitamente para download: http://cbic.org.br/bim/ O BIM veio para ficar, pesquisem, observem, fiquem atentos ao que anda acontecendo em várias partes do mundo e mesmo aqui no Brasil. Em pouco tempo a adoção BIM deixará de ser opcional e passará a ser compulsória. Lembrem-se também que para esta mudança, não convém ´sair fazendo´ como nós brasileiros gostamos de fazer as coisas. Todas as melhores implantações foram feitas através de projetos formais, com a definição de projetos-pilotos e contaram com um bom nível de planejamento prévio e controle.

Mãos-a-obra e boa sorte!

¹ Thomas Bock (Chair of Building Realization and Robotic, Technical University, Munich, Germany), publicado no artigo “The future of construction automation: Technological disruption and the upcoming ubiquity of robotics” (2015).

Texto escrito por Wilton Silva Catelani, consultor BIM da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) para a 10° Edição da Revista GBC

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Uma resposta

  1. Felipe
    | Responder

    Excelente!!!

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